A jazida de Icnofósseis da Pedra da Mua situa-se nas arribas do Cabo Espichel, nas lajes que limitam a sul a Praia dos Lagosteiros, nas coordenadas (38º 25’ 20’’ N; 09º 12’ 58’’ W) em formações sedimentares do Jurássico Superior (Portlandiano) de há 142 – 146 Milhões de Anos, (Ramalho, 1971). Classificada como Monumento Natural pelo Decreto nº 20/97 de 7 de Maio e tendo sido englobada nos novos limites do Parque Natural da Arrábida (RCM n.º 141/2005, de 23 de agosto).

Vou tentar, de forma abreviada, recorrendo aos diferentes fácies (características litológicas e paleontológicas) descrever os paleoambientes que existiram na altura da formação dos estratos que lá podemos encontrar, para uma melhor interpretação e compreensão, dos 8 níveis de pegadas que ela contém.  

As arribas nesta zona são formadas por calcários, calcários argilosos, margas e arenitos, numa sucessão contínua de camadas muito inclinadas para Norte, cerca de 40º, terminando na superfície de aplanação do Cabo à cota de 130 a 140 m. Provenientes de sedimentos de diferentes tipos de ambientes costeiros, ricas em fósseis de bivalves, gastrópodes, ostracodes, foraminíferos, algas calcáreas, além de ossos de tartarugas atribuíveis a Plesiochelydae (Lockley et al., 1994).


Editado de Pegadas de dinossauro em Portugal - National Geographic Portugal 2006


Monumento Natural Pedra da Mua
 Baía dos Lagosteiros
 Fotos – O. Pinto 2015


As pegadas sempre foram conhecidas pelos pescadores locais, presume-se que desde o séc. XIII, tendo sido associadas a uma velha lenda da Nossa Senhora da Pedra da Mua, segundo a qual a Virgem Maria teria aparecido no topo do promontório transportada por uma mula que subiu as lajes inclinadas deixando as suas patas marcadas na rocha.

Perfeitamente descrita num dos painéis de azulejos existente no interior da Ermida da Memória que remonta ao início da peregrinação Mariana ao local. No painel com a legenda “Chegando a este sítio vêem com admiração subir a Senhora pela rocha” , observa-se a representação das pegadas desde o nível do mar até ao topo da arriba.




E foram assim permanecendo até que em 1971, uma equipa da Universidade de Lisboa, se deslocou ao local, a pedido de Dr. Eduardo Serrão e Dr. Luís Saldanha que tinham ouvido o relato de um pescador sobre a lenda das pegadas da mula que transportou Nossa Senhora do Cabo e que suspeitaram tratar-se de pistas de dinossáurios, o que se confirmou com a publicação de fotografias de uma pista de saurópodes, (Antunes M. T., 1976), posteriormente veio a ser estudada exaustivamente entre 1992 e 93 (Santos et al., 1992; Lockley et al., 1994). Tendo sido realizado o mapeamento do icnótopo, planta, fotos e recolhidas as medidas inerentes às pistas e pegadas já conhecidas, como das novas então descobertas.


O icnótopo da Pedra da Mua, caracteriza-se por uma sucessão estratigráfica de sedimentos carbonatados provenientes de águas rasas, datados do Portlandiano Superior ou Portlandiano B (Ramalho, 1971,1988), estas camadas inicialmente depositadas em estratos horizontais sofreram ao longo do tempo, processos de litificação que originaram as lajes calcárias e margosas actuais, sendo a actividade tectónica, o choque entre as placas Africana e Eurasiática e o levantamento da cadeia da Arrábida os responsáveis pela fracturação, dobragem e inclinação que adquiriram.

Neste local, a passagem Jurássico-Cretácico corresponde a uma sucessão contínua de fácies marinha, ao longo das camadas que afloram naquela praia, sendo, assim, um dos poucos locais em Portugal onde isto se pode observar. O corte geológico aqui descrito tem, pois, excepcional valor científico (Ramalho, 2014)”.


 

Filmagem realizada com drone Dji Phantom 4 do Património Natural e do Edificado. 

Publicado por Sérgio Correia.

29/01/2017 - YouTube
 

Evolução Geológica da Zona da Cordilheira da Arrábida.

Excerto do vídeo, Arrábida a Património Mundial - Publicado em 30/03/2012 - YouTube


Há 150 milhões de anos, em pleno Jurássico Superior, a disposição geográfica dos continentes era muito diferente, pelo que existem tantas semelhanças, no que respeita a paleoambientes e géneros comuns de dinossauros, com regiões actualmente tão distantes como a formação Morrisson nos E.U.A. e Tendaguru beds na Tânzania.

Durante este período iniciava-se formação da Bacia Lusitânica, que se estende do Cabo Espichel ao Cabo Mondego, a parte central do Portugal dos nossos dias, estava em processo de submersão, e a ser preenchida por sedimentos continentais, a evolução do rift intracontinental relacionado com as primeiras fases de fragmentação da Pangeia, que vinha decorrendo desde o Triásico e prolongou-se até ao Cretácico inferior. 

Conforme a reconstituição paleogeográfica proposta por Jansa e Wade (1975), no Jurássico Superior havia um vasto mar pouco profundo, do tipo epicontinental entre o Canadá e Portugal. Provado pelos dados recolhidos em várias pesquisas e dragagens nas plataformas continentais do Canadá (Ascoli et al., 1974) e Portugal (Dupeuble et al., 1976, Boillot et al., 1974) além dos resultantes do  Deep Sea Drilling Project (DSDP), que demonstram a existência de ambientes marinhos pouco profundos durante o intervalo Jurássico Superior - Cretácico Inferior (Ramalho, 1988).

Relembro um excerto duma entrevista ao Prof. José Carlos Kullberg - Ao encontro da Arrábida desconhecida – Publicada no National Geographic Portugal de 2014:

” Além da progressiva separação, outro factor interferiu – a colisão da placa africana com a euro-asiática levou a que o mar de Tétis se fosse fechando até formar o actual Mediterrâneo. Com todos estes movimentos e rotações, inicia-se a abertura do Atlântico Norte e o fecho do mar de Tétis; é aqui que intervém a Arrábida. “A serra começou a erguer-se há cerca de 17 milhões de anos e o soerguimento de terras deu-se por colisão, levando à subida, para a superfície, dos materiais sedimentares que se tinham formado em ambientes marinhos aquando do início da abertura do Atlântico Norte”

Em termos geológicos, nada é o que parece: “Antes, o Tejo terminava em delta, era uma área imensa que atingia a lagoa de Albufeira, e foi a elevação da Arrábida que provocou a separação dos cursos do grande rio ibérico e do Sado. ”


Descrição da Jazida.

Destacam-se 8 níveis que apresentam 40 pistas bem preservadas (Lockley et al., 1994, Fig. 1), com cerca de 700 pegadas. Sendo 38 de Saurópodes (quadrúpedes herbívoros) e 2 de Terópodes (bípedes carnívoros).

Se compararmos estas formações carbonatadas, com pistas do tipo icnofácies de Brontopodus, existentes em Portugal, Suíça e EUA, deparamos com semelhanças entre os paleoambientes, onde os saurópodes e terópodes nos deixaram as suas marcas, extensões médiolitorais secas e em sapais supralitorais, tipo zonas lagunares. “Este facto levanta a questão: seriam os saurópodes visitantes ocasionais de ambientes costeiros ou, pelo contrário, o litoral era um dos seus habitats favoritos?” ( Meyer, Pittman, 1994)

 (Editado de Pegadas de dinossáurios no Concelho de Sesimbra – A. M. Galopim de Carvalho, Vanda F. Santos)

Vamos então descrever sucintamente os 8 níveis de icnofósseis (do grego "iknos" que significa "traço" ou "vestígio") e analisar ao detalhe as pegadas dos níveis 3 e 5, considerados os mais relevantes de toda a jazida.

Sucessão estratigráfica e respectiva localização dos vários níveis de pistas que se encontram definidos (Lockley, Meyer, Santos, 1994).



     Os diferentes níveis das Pistas de Dinossáurios
                        da Jazida da Pedra da Mua

Nível 7 – Uma pista de Saurópode.

 

Nível 6 – Seis pistas de Saurópodes.

 

Nível 5 – Cinco pistas de Saurópodes.

 Nível 4 – Uma pista de Saurópode e uma de Terópode.

 



Nível 3 – Onze pistas de Saurópodes e uma de Terópode.

Nível 2 – Duas pistas de Saurópodes.

Nível 1 – Oito pistas de Saurópodes.

Nível 0 – Quatro pistas de Saurópodes.
                                       Fig.1 - Editado de M.Lockley, C.Meyer,V.Santos, (1994)

Nível 0  

Apresenta quatro pistas de Saurópodes, evidenciando-se uma delas por ser constituída dominantemente pela impressão do autópode anterior esquerdo. Este tipo de pista incompleta, é semelhante às do Jurássico de Marrocos e do Cretácio do Texas, forma-se devido a ter sido impressa num sedimento brando e irregular, que não chegou a litificar na sua totalidade, aliás demonstrado até pela presença de bioturbação de invertebrados existente neste nível (Lockley et al., 1994).

Apesar de coexistir com pistas completas, o que significará que os outros Saurópodes passaram em tempos diferenciados resultando numa preservação distinta.

A cheio as pegadas bem conservadas das mãos (autópodes, anterior esquerdo) a tracejado as pegadas mal conservadas de pés e mãos.


                            Editado de http://projectos.cienciaviva.pt                                                                                 Fig.2- Editado de M.Lockley, J.Pittman, C.Meyer,V.Santos, 1994

Nível 1

Assenta num estrato liso com veios margosos, com forte bioturbação, contendo pequenos gastrópodes Nerinea e restos de grandes foraminíferos Anchispirocyclina lusitanica (de forma discóide com as dimensões de uma moeda de 1 cêntimo a 5 cêntimos, o que é assinalável para um ser unicelular). São visíveis oito pistas de Saurópodes.


Nível 2  

Representado por um estrato proveniente de um paleoambiente marinho raso, contendo foraminíferos com intercalações marinhas e fragmentos de madeira. Inclui 2 pistas de Saurópodes.





Nerinea sp. Anchispirocyclina lusitanica
Protocardia sp.
Plesiochelys sp.


Nível 3  

Desenvolve-se num estrato com uma superfície acidentada, contém bivalves do tipo (Protocardia), gastrópodes nativos, Nerinea e restos de tartarugas marinhas (Plesiochelys sp.).

Trata-se do nível com maior número de pistas bem preservadas, sendo onze de saurópodes e uma de terópode. Marcadas na Fig.3, de 1 a 9 na orientação Sul/Norte da laje.














A: Pormenor da área do nível 3 com as pistas paralelas de saurópodes.

B: Mapa com a representação das pistas dos pequenos saurópodes (1 a 7) e da pista do saurópode maior que as cruza (pista 8), dem como da pista constituída apenas por marcas de mãos (pista 9).



Fig.3 - Editado de M. Lockley,C. Meyer, V. Santos, 1994


De 1 a 7 encontramos as pistas paralelas com orientação ESE, identificadas como pertencentes a formas juvenis de saurópodes em que o comprimento da pegada do pé oscila entre 38 cm e 46 cm, que se deslocavam em grupo, de forma paralela, a velocidade idêntica sendo a preservação das várias impressões perfeitamente homogénea. Sendo reconhecida como o primeiro exemplo de comportamento gregário nos saurópodes numa jazida europeia e o melhor testemunho no caso de animais tão pequenos, Lockley (1994) propõe como estimativa que os animais deveriam ter entre um ou dois anos de idade.

 

Ilustração de Mário Estevens




Usando os dados possíveis recolhidos no local, de acordo com o esquema seguinte, e porque os trilhos são evidências de um animal na vida e, como tal, dão-nos provas directas da sua anatomia e comportamento. 

Vamos fazer vários cálculos que nos permitirão conhecer um pouco melhor os autores das pegadas.



Análise de dados para os pequenos saurópodes.







- Calcular o valor a para o comprimento do membro posterior até ao acetábulo (articulação da anca).

Recorrendo a três fórmulas possíveis para saurópodes, a=4 x Comprimento do pé Alexander (1976), a=5,9 x Comprimento do pé Thulborn (1990), a=4 x Largura do pé Lockley (1986).


Conclusões:

Os saurópodes juvenis teriam membros posteriores entre 1,5 a 1,8 m de altura desde o solo à anca.


- Imaginar a estrutura anatómica pélvica do animal, a partir da largura interna da pista.

Os especialistas em trilhos de Saurópodes reconheceram há muito dois tipos de trilhos, que Farlow (1992) apelidou de "narrow-guage” (bitola estreita) e " wide-guage” (bitola larga), com base na posição das marcas de mãos e pés, em relação à linha média do trilho. Wilson e Carrano (1999) concluíram que a disparidade do calibre era uma característica taxonómica dos saurópodes e demonstrava características anatómicas e biomecânicas dos mesmos.

No caso dos saurópodes da jazida da Pedra da Mua, quer as formas juvenis, quer os adultos, verificou-se que pertencem todos ao tipo bitola larga (Wide – guage).


 



Conclusões:
Os saurópodes juvenis teriam uma largura aproximada de tronco entre os 95 e 110 cm.

- Determinar o tipo de locomoção a partir da razão entre λ/a, sugerida por Thulborn (1982); e Wade (1984).


Deste modo, consoante o valor da referida razão,  é possível qualificar como  o animal se deslocava:

marcha se λ/a <2,0 

trote se 2 < λ/a< 2,9 

galope se λ/a> 2,9.


Conclusões:

Os pequenos saurópodes deslocavam-se em marcha dado que a razão λ/a é inferior a 2.


- Calculo da velocidade com que se deslocavam os animais. 


Recorrendo à formula proposta por Alexander (1976),  a velocidade V = 0,25 x g 0,5 x λ 1,67 x a -1,17.


Conclusões:

Os animais de menores dimensões deslocavam-se a velocidades entre 3,6 e 5 km/h.


De notar que se compararmos com as pistas do Texas Davenport Ranch comprimento do pé entre 35 e 78 cm (média 53 cm) e do Colorado Purgatoire Valley que mostram um grupo de 5 pistas paralelas entre 52 e 60 cm (média 57 cm), as nossas (Cabo Espichel), 6 pistas entre 25 e 30 cm (média 28 cm) de pequenos Saurópodes são de facto o melhor exemplo conhecido de comportamento gregário. 

“Thus the Portuguese tracks are only 79 and 74% respectively of the size of the tracks from Texas and Colorado, and are thus the best evidence available for small brontosaurs travelling in groups” (Lockley, Meyer, Santos, 1994).


Análise de dados para os saurópodes adultos e terópode.

Vamos agora proceder aos cálculos para as restantes pistas de saurópodes adultos e do terópode, deste nível 3, que se localizam na parte superior e inferior da falésia Fig.3 e Fig.4.

 

Fig.4 - Editado de M.Lockley, C.Meyer,V.Santos, 1994

Na parte superior da falésia, encontramos as pistas 8 e 9 (Fig.3) e na parte inferior as pistas 10 e 11 além da pista de pegadas tridáctilas do terópode (Fig.4).

As pistas 9, 10 e 11 onde o comprimento da pegada do pé oscila entre 70 e 73 cm, apresentam-se como paralelas, com orientação (SE) semelhante às anteriores, das pistas 1 a 7 (ESE). Identificadas como pertencentes a saurópodes de maiores dimensões, que seguiam os animais mais jovens da mesma espécie. 

De acordo com o proposto por Marty (2008) os saurópodes podem ser classificados em função do comprimento do pé como: minúsculos (C<25 cm), pequenos (25 ≤ C ≤ 50), médios (50≤ C ≤ 75), grandes (C ≥ 75). Deste modo, no nível 3 as formas juvenis seriam pequenos saurópodes enquanto os das pistas 8, 10 e 11 seriam saurópodes de porte médio muito perto de se considerarem de grande porte. 

A pista 8 cruza as pistas dos saurópodes mais pequenos, embora diferindo cerca de 30º relativamente à orientação do grupo de formas juvenis, como assenta no mesmo estrato e apresenta o mesmo tipo de preservação, podemos admitir que o grupo de Saurópodes maiores seguia os mais pequenos e que o episódio, não ocorreu em tempos diferentes, como é o caso da pista 9 que apresenta um sentido de direcção oposta (NW) e onde só ficaram bem registadas as mãos do saurópode, embora no mesmo estrato mas com sentido oposto e diferentes condições de preservação. O que indica que terá passado num “timing” posterior.

 

Ilustração representativa do grupo de saurópodes juvenis, adultos e terópodes que se deslocaram acerca de 145 Ma na zona do cabo Espichel.



Vamos então fazer os cálculos com os dados recolhidos e seguindo a mesma metodologia, que nos irá permitir conhecer um pouco melhor os saurópodes adultos autores das pegadas, registadas no estrato correspondente a este nível 3.



- Calcular o valor a para o comprimento do membro posterior até ao acetábulo (articulação da anca).


Conclusões:

Os saurópodes adultos teriam membros posteriores entre 2,8 a 2,9 m de altura desde o solo à anca.



- Imaginar a estrutura anatómica pélvica do animal, a partir da largura interna da pista.


Conclusões:
Os saurópodes Adultos teriam uma largura aproximada de dorso entre os 138 e 155 cm.



- Determinar o tipo de locomoção a partir da razão entre λ/a,


Conclusões:

Os saurópodes adultos deslocavam-se em marcha dado que a razão λ/a é inferior a 2




- Calcular a velocidade com que se deslocavam usando a fórmula V = 0,25 x g 0,5 x λ 1,67 x a -1,17.

Conclusões:
Os animais de maiores dimensões deslocavam-se a velocidades entre 3,3 e 4,1 km/h.


Quanto à pista de Terópode.

Apenas 3 marcas de pegadas tridáctilas, com as garras bem definidas e elevado valor do ângulo do passo, que se cruza com a pista 11 sabemos que o pé media 42 cm e tinha uma largura de 35 cm, pelo que podemos considerar como um grande terópode já que o comprimento do pé, C > 25 cm, de acordo com a mais recente tabela de classificação das dimensões dos terópodes: Pequenos terópodes (C ≤ 25 cm), Grandes terópodes (C > 25 cm).

Terá passado em episódio posterior à caminhada dos Saurópodes e em direcção sensivelmente contrária.

Usando a fórmula de cálculo de a= Comprimento do membro posterior até ao acetábulo, de acordo com a tabela:

Pequenos terópodes a=4,5 x C, Grandes Terópodes a=4,9 x C.

Podemos inferir, que o comprimento do pé à anca seria de 2,05 metros.                                          

                                                                        Representação à escala do Terópode.


Nível 4


É constituído por um estrato que contém fósseis de bivalves Protocardia sp., nerinea, abundantes miliolinídeos e outros foraminíferos.

Uma pista de Saurópode e uma pista de pegadas tridáctilas de um carnívoro, com elevado valor do ângulo do passo que pressupõem um Terópode com cerca de dois metros do solo à anca.

Foto da pegada tridáctila de terópode – Luís Quinta.


Nível 5

Trata-se de um estrato formado em águas rasas, com foraminíferos Anchispirocyclina lusitanica e restos de peixes Pycnodontiformes. Apresenta cinco pistas de Saurópodes (tipo Brontopodus), constituídas por impressões bem conservadas, muitas delas profundas, com as margens verticais, de contornos espessos devido à pressão exercida pelas patas dos Saurópodes de grande porte (C ≥ 75), 80 cm de comprimento da marca do pé.

Sendo este o nível, onde se encontram as pegadas relacionadas com a lenda da Nossa Senhora do Cabo Espichel, referenciadas como as pegadas da mula (Mua).

 Painel de azulejos do séc. XV da Capela da memória


 Fotos - Carlos Marques da Silva e O.Pinto


  

Fig. 5 - Editado de M.Lockley, C.Meyer,V.Santos, 1994


Com os dados que disponho, fazendo a análise dos mesmos, pode-se concluir:

- Os Saurópodes das pistas 3 e 4 faziam trajectos semelhantes com o mesmo tipo de orientação SE. O Saurópode da pista 1 deslocava-se em sentido contrário, atendendo ao posicionamento das marcas das mãos relativamente aos pés. Enquanto o animal da pista 2 que cruza a pista 1, faz um percurso irregular e a pista 5 que só apresenta marcas das mãos, não possibilita definir o sentido da progressão. O que significa que podemos estar perante 4 episódios diferentes ocorridos em tempos distintos.

A pista 2 apresenta marcas perfeitas de pés e mãos (as poucas que estão mais danificadas deve-se ao efeito da erosão da proximidade do mar), de tal forma que revelam quatro marcas de dedos triangulares com a terminação aguçada (Meyer et al., 1994). O comprimento das marcas dos pés são de 80 cm por 58 cm de largura, o que aplicando a fórmula de Alexander para determinar o comprimento do pé à anca, a=4 x C, nos leva ao valor de 3,20 m. As impressões das mãos, em forma de crescente têm 18 cm de comprimento por 38 cm de largura

A distância inter-par (mãos – pés) é de 15 cm, admitindo que o valor da passada era de 290 cm, podemos pela fórmula de Haubold’s “L = ¾ x Passada + distancia inter-par” determinar que a distância gleno-acetabular (o comprimento do tronco, medido da cintura escapular ao acetábulo) era de 2,3 metros.


Desta pista foi escolhida uma impressão de pé e mão, em que foi feita um molde recorrendo a latex, para posterior criação da réplica em gesso, que hoje em dia faz parte das colecções do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa.


- A pista 3 revela-nos um saurópode de dimensões mais pequenas, mas com uma particularidade, as marcas das suas pegadas apresentam-se com espaços ora curtos ora longos, demonstrando uma irregularidade típica de animal que coxeava (Dantas et al., 1994; Meyer et al., 1994), não é exemplo único, em Portugal surgiram os seguintes casos: Pedreira do Cavalo relativo a um Saurópode (Dantas et al,, 1994), Praia dos Olhos de Água, Óbidos a pista B relativa a um Terópode (Mateus e Antunes, 2000) e recentemente na pista 3 da Pedreira da Amoreira, e na pista 8 Vale de Meios.

- A pista 4 surge num bloco caído do cimo da laje superior e que se encontra ao nível da maré, ilustra também o rasto de um saurópode, as suas impressões apresentam-se gastas devido à erosão marinha.

- A pista 5 é dominada pelas marcas em forma de crescente, das mãos de um saurópode que por lá passou, num “timing” diferente, com condições de preservação mais difíceis, já que o ambiente de sedimentação numa determinada área é definido por um conjunto de propriedades físicas, químicas e biológicas, diferenciadas das que podem ocorrer em áreas adjacentes, o que terá levado a que o registo das marcas dos pés tenha desaparecido.


Nível 6

É um estrato arenoso com gastrópodes abundantes da família das Turritellidae, referenciando um ambiente marinho raso. Destacam-se seis pistas de Saurópodes.

Nível 7

É formado por um estrato ligeiramente mais arenoso, que o anterior rico em foraminíferos, representando um cenário marinho raso. Contêm uma pista de Saurópode.

Ilustração de  Fernando Correia e Nuno Farinha



Texto: Orlando Pinto, 2017


Origem das fotografias:  wikipedia.org; Google Maps ; O.Pinto; Sandra Patrícia; Luis Quinta; C.Marques da Silva; lusodinos.blogspot.pt/.  Ilustrações: National Geographic Portugal; Mário Estevens; Martins Barata; Fernando Correia e Nuno Farinha

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