A jazida de Icnofósseis da Ribeira do Cavalo situava-se na área das pedreiras do Zambujal, a 2,5 km de Santana, nas coordenadas (38° 26' 22'' N, 9° 7' 48'' W) em formações sedimentares do Jurássico Superior (Oxfordiano - Kimmeridgiano inferior.) de há 160 – 150 Milhões de Anos, (Lockley et al., 1992)Foi descoberta em 1989 pelo Director dos Serviços Geológicos de Portugal, Prof. Miguel Magalhães Ramalho. Apresentava várias pistas de Terópodes (bípedes, carnívoros) do icnogénero Megalosauripus sp. onde se incluem os maiores icnitos (pegadas) de terópodes jurássicos (Lockley et al., 1998b). Tendo algumas, descritas nesta jazida 70 a 77 cm de comprimento (Santos et al,, 1995), tal como uma pista de Saurópode (quadrúpede, herbívoro) icnogénero Brontopodus sp., do tipo “wide-gauge” com uma largura interna da pista de 80 cm (Santos e N. Carvalho, 2016), Havia também um pista com impressões de mãos com os dedos de um possível estegossaurídeo (A Carlos Abrantes e a Giuseppe Manupella, 2010) tendo sido considerada uma jazida de superior interesse internacional.

Apesar de todos os esforços que se desenvolveram para a preservar, relembro um excerto do artigo, “A Jazida da Pedreira da Ribeira do Cavalo (Sesimbra) ou a história das pegadas de dinossáurio que nunca mais poderemos visitar” de V.F. Santos, A.M. Galopim de Carvalho e C. M. da Silva, publicado pelo Centro de Arqueologia de Almada em 1995.

“ …Assim paralelamente ao estudo da jazida, o MNHN desenvolveu esforços no sentido de sensibilizar as entidades responsáveis para a recuperação, conservação e musealização da ocorrência e do seu espaço envolvente, um sector abandonado pela lavra da pedreira da Ribeira do cavalo. 

O pedido de classificação do sítio como “imóvel de Interesse Local” foi apresentado à autarquia sesimbrense em 18 de Agosto de 1992 e, simultaneamente, era dado o alerta para a necessidade urgente de consolidação da laje, muito instabilizada e em risco de colapso eminente. Dado o valor científico da jazida, a Câmara Municipal de Sesimbra, instada pelo MNHN, solicitou, ainda nesse ano, ao Instituto de Conservação da Natureza a sua classificação como “Monumento Natural”, ao abrigo da legislação vigente.

Mais de dois anos e meio decorreram desde a data do pedido de protecção da jazida e a sua derrocada. Durante esse período de tempo várias acções foram realizadas no sentido de acelerar o processo de classificação, dada a situação periclitante da laje que continha as pegadas. Foi enviada uma carta à Câmara Municipal de Sesimbra pedindo que fossem tomadas medidas no sentido de consolidar a laje. Foi contactado o ministério da tutela, o Ministério do Ambiente, solicitando, repetidas vezes, entrevistas à senhora ministra Teresa Patrício Gouveia no sentido de alertar apara a urgência da resolução do problema, mas sem qualquer sucesso. Por fim, foi solicitada uma entrevista com o senhor Secretário de Estado do Ambiente, Joaquim Poças Martins, que acabou por ficar agendada para o dia 31 de Março de 1995.

Em 9 de Março de 1995 o inevitável aconteceu, a laje ruiu, ficando assim uma jazida de pegadas de dinossáurios com importância mundial reduzida a um monte de escombros. As infiltrações de águas pluviais durante os três Invernos subsequentes e, acima de tudo, os efeitos dos frequentes rebentamentos realizados nos sectores em laboração da vizinha pedreira da Ribeira do Cavalo, propriedade do Sr. José Gomes Galo, ditaram o destino (anunciado) da laje (a mesma pedreira onde se situa a polémica e, recentemente, semidestruída Gruta do Zambujal. Coincidência ou não, a mesma pedreira, o mesmo concelho, o mesmo problema…”

Descrição da Jazida.

A jazida da Ribeira do Cavalo situava-se na área das pedreiras do Zambujal, em formações sedimentares do Jurássico Superior (Oxfordiano - Kimmeridgiano inferior.) de há 160 – 150 Milhões de Anos, (Lockley et al., 1992). O paleoambiente da época, na altura da formação dos estratos onde os terópodes e saurópodes, nos deixaram as suas marcas, seriam sapais supralitorais, tipo zonas lagunares, relativamente confinadas e pouco profundas (Lockley et al,. 1992), ambientes estáveis, de águas rasas com um clima tropical. O que é evidente pelo género de rocha que constituía a laje da jazida, Calcário Micrítico, constituído essencialmente por calcite [CaC03] muito fina (4 a 31 micro), que se forma a partir da litificação de lama clástica finíssima, carbonatada constituída por elementos biogénicos, aragoníticos convertidos para calcite. O calcário micríto apresenta-se, compacto, muito fino e, geralmente, associado a ambientes recifais.


A servir de escala o Professor Lockley da Universidade do Colorado (denve. E.U.A.)


Pormenor dos trabalhos com recurso a um equipamento elevatório cedido pela EDP  

Para uma melhor interpretação e compreensão, recordo que, neste período iniciava-se formação da Bacia Lusitânica, que se estende do Cabo Espichel até ao Cabo Mondego, a parte central do Portugal contemporâneo, estava em processo de submersão, e a ser preenchida por sedimentos continentais. Conforme a reconstituição paleogeográfica proposta por Jansa e Wade (1975), no Jurássico Superior havia um vasto mar pouco profundo, do tipo epicontinental entre o Canadá e Portugal. Provado pelos dados recolhidos em várias pesquisas e dragagens nas plataformas continentais do Canadá (Ascoli et al., 1974) e Portugal (Dupeuble et al., 1976, Boillot et al., 1974) além dos resultantes do  Deep Sea Drilling Project (DSDP), que demonstram a existência de ambientes marinhos pouco profundos durante o intervalo Jurássico Superior - Cretácico Inferior (Ramalho, 1988).

As pelo menos 15 pistas da jazida da Ribeira do Cavalo encontravam-se dispostas em 4 níveis, que se individualizavam por se tratar de registos de episódios diferentes em “timings” distintos, como por exemplo as pegadas de um grande saurópode que cruza a pista 1 de um terópode, a existência de outros trilhos de saurópodes descobertos posteriormente em outros dois locais noutra camada da pedreira, (A.M. Galopim de Carvalho et al., 1993), além de trilhos onde surgiam pegadas sobrepostas de animais diferentes e condições de consolidação diferenciadas.

Planta Geral da Jazida

 

(Lockley, M.G.; Novikov, V.; Santos, V.F.; Nessov, L.A. & Forney, G. 1994. Ichnos, 3: 125-133.)

A zona principal da jazida, na direcção Este-Oeste, pendendo 70º para Norte era constituída por lajes com uma inclinação de cerca de 80º. A inclinação dos estratos deve-se à fase compressiva da Bacia Lusitaniana que vem decorrendo desde o final do Cretácico até à actualidade, por colisão da microplaca ibérica com as placas africana e euroasiática. Provocando a inversão da bacia e a exposição das rochas carbonatadas do Jurássico.

Vamos então analisar alguns dos diferentes trilhos, com os dados possíveis, a partir do que existe documentado:


Pegadas de Saurópodes: 


Nas publicações iniciais, Lockley, Santos, Ramalho e Galopim de Carvalho, referem-se uma única pista de saurópode identificada no desenho original da jazida como (Sa), (Lockley, et al,1992). 

Porém se observar-mos atentamente, verificamos que existem lá desenhadas, mais impressões, possivelmente atribuíveis a saurópodes, é o caso das pistas assinaladas a verde na figura seguinte:


Adaptado de Lockley et al.,1992  


- Pista (Sa) – Trilho de um grande saurópode, pista larga do tipo ("wide – guage"), dominada pelas marcas das mãos, em que numa dessas pegadas registadas, os autópodes anteriores apresentam uma profundidade de 6,5 cm e muito bem definida, é visível até, a impressão dos unguais dos dígitos, do I ao V, tendo sido feita uma réplica, pois representava, para já, o melhor registo fóssil deste tipo de vestígios conhecidos no mundo (Lockley et al., 1992)

A seta indica a pegada mais perfeita do saurópode. 

 


Desenho da impressão do autópode anterior.


 

De acordo com as fotos e desenhos, feitos os cálculos com as fórmulas apropriadas, direi que o saurópode da pista (Sa) teria um valor estimado para o comprimento do pé igual a 31 cm, o que indica que a altura do membro posterior até ao acetábulo (articulação da anca), seria de 1,4m (valor do “hip height”).


 


Desenho da pista (SA), com os 8 autópodes anteriores e a marca do posterior.



- Pista (Sa1) – Trilho do tipo pista muito larga ("wide – guage"), talvez até a mais larga (largura interna da pista 80 cm.) conhecida no registo fóssil mundial (A. Carlos Abrantes e a Giuseppe Manupella) existente no nível 2 da jazida, na parte superior. Atribuída a um grande saurópode, do icnogénero Brontopodus isp (Santos e Neto de Carvalho, 2016). Era constituída por 9 pegadas, das quais 5 nítidas dos autópodes posteriores e duas dos autópodes anteriores.


Adaptado de Santos e Neto de Carvalho

Foto da pista (Sa1)

Com os dados disponíveis nas publicações, vamos fazer alguns cálculos que nos permitam ter uma melhor precessão da grandeza do saurópode.









- Calcular o valor a para o comprimento do membro posterior até ao acetábulo (articulação da anca) - “hip height”.

Recorrendo a três fórmulas possíveis para saurópodes, a=4 x Comprimento do pé Alexander (1976), a=5,9 x Comprimento do pé Thulborn (1990), a=4 x Largura do pé Lockley (1986).


- Imaginar a estrutura anatómica pélvica do animal, a partir da largura interna da pista.


- Determinar o tipo de locomoção a partir da razão entre λ/a, sugerida por Thulborn (1982); e Wade (1984).



- Cálculo da velocidade com que se deslocavam os animais.  Recorrendo à formula proposta por Alexander (1976),  a velocidade V = 0,25 x g 0,5 x λ 1,67 x a -1,17.


Pudemos então concluir que o saurópode do tipo Brontopods isp.:

- Possuía um comprimento do membro posterior até ao acetábulo (articulação da anca), de 2,4m (valor de a “hip height”).

- Pertencia ao tipo bitola larga ("wide – guage"), teria uma largura aproximada de tronco de 1,56m.

- Deslocava-se em marcha dado que a razão λ/a é inferior a 2. E à velocidade de 3,8 Km/h.


- Pistas (Sa2, Sa3 e Sa4) Trilhos de possíveis saurópodes, também do tipo pista larga, tal como de todos os saurópodes referenciados, na jazida da Pedra da Mua no concelho de Sesimbra, e que se dirigiam no mesmo sentido e de uma forma paralela aos animais das pistas anteriormente descritas.


Pegadas de Terópodes:

- Pista (1) – Trilho de terópode constituído por quatro pegadas tridáctilas, profundas e muito bem definidas, que chegavam aos 75 cm de comprimento (V. Santos, 2002). A maior desenhada e registada em acetato o seu contorno, por Lockey et al. (2000), media 77 cm de comprimento por 60 de largura. Esta pegada era uma subimpressão, onde também tinha ficado impresso parte do metatarso (V. Santos, 2002). Lockley et al. (1996) atribuíram o autor da pegada à icnoespécie Megalosaurípus lusitanícum, porém em 2000, reclassificaram-no como sendo um Megalosaurípus sp.

A seta assinala a pegada de maiores dimensões.

Para determinarmos as proporções deste colossal animal, vamos recorrer às fórmulas morfométricas de Thulborn (1990), que propõe para os Terópodes pequenos (Comprimento do pé< 25 cm): a = 4.5xC Terópodes grandes (Comprimento do pé> 25 cm): a = 4.9 xC

Aplicando a fórmula adequada a grandes Terópodes, determinamos o valor expectável para a= 4,9 x C. O comprimento do membro posterior até ao acetábulo (articulação da anca) - “hip height”, seria neste caso de 3,7 metros.

Em Portugal registam-se as maiores impressões tridáctilas, na Praia do Cavalo - 73 cm, no Cabo Mondego - 60 cm, em Vale de Meios - 58 cm, e na Pedra da Mua – 42 cm. No Jurássico superior de Marrocos, na pista 161Gr existe uma pegada de 75x65 cm (M. Boutakiout et al. 2009), muito semelhante à do nosso terópode 77x60 cm. e no do Uzbequistão,  também no Jurássico superior existe outra de 72x55 cm. (Lockley et al. (1996a, 2000) . 

Dentro da icnoespécie Megalosaurípus destaco estes exemplos:


Adaptado de Tabla 5. Las icnitas terópodas mayores (medidas en cm). (M. Boutakiout et al. 2009)




Desenhos comparativos de grandes pegadas de Megalosauripus do Jurássico Superior:

(A) do Cabo Mondego

(B) da Pedreira do Zambujal

(C e D) das Astúrias, Espanha.


O gigantismo (tamanho de mais de seis metros em vertebrados terrestres) é um facto encontrado nos terópodes. Vários critérios foram estabelecidos para considerar um terópode como um gigante, Farlow et al. (2006) consideram formas de terópodes gigantes quando a pegada excede 60 cm de comprimento, ou de acordo com Barco et al. (2005), os terópodes gigantes devem ter o comprimento do membro posterior até ao acetábulo superior a 2,5 m. Estes mesmos autores indicam que, durante o Jurássico Superior, as grandes formas dos terópodes pertencem às famílias: Allosauroidae, Carcharodontosauridae, Spinosauridae e Megalosauridae. Esta diversidade e as correspondentes diferenças morfológicas e etológicas não permitem ajustar os cálculos relacionados ao tamanho do corpo em relação ao comprimento do membro posterior de forma unívoca, mas se considerar-mos que o comprimento do corpo é um múltiplo de entre três e quatro vezes e meia o comprimento do membro posterior, então o tamanho deste terópode da Pedreira do Zambujal seria entre 11 e 17 metros.


Fotos da maior Pegada.

A barra negra mede 40 cm

Existem poucas diferenças entre Megalossaurus uzbekistanicus e os exemplares registados em depósitos da mesma idade na Europa e América do Norte. De fato, as semelhanças superam as diferenças. A gama de tamanhos das pegadas registadas na Europa (aproximadamente 50 por 30 cm até 77 por 60 cm (de comprimento largura), na América do Norte (40 por 30 cm a 53 por 38 cm) e na Ásia (de 39 por 29 cm a 72 por 55 cm), é notoriamente semelhante, excepto que na América do Norte as pistas são verdadeiramente gigantescas. As duas maiores medidas citadas (77 por 60 e 72 por 55) são as maiores pegadas de terópodes conhecidas paro o Jurássico. Sendo a primeira a da Pedreira do Zambujal (Lockley, Meyer e Santos,1998).


- Pistas 2, 3, 6 além da 1, apresentam o mesmo sentido e direcção de deslocamento numa forma perfeitamente paralela, no mesmo nível estratigráfico, enquanto a pista 4 cruza a 2 e a 3 mas no mesmo sentido. E o animal da pista 7 segue os outros também na mesma direcção. Todos terópodes embora de diferentes dimensões, onde os valores do comprimento do pé à anca variam entre os 1,3 a 3,7 metros. 

Tratar-se ia de um dos poucos exemplos conhecidos de comportamento gregário nos terópodes. Possivelmente sim, podemos inferir isso a partir do desenho de Lockley et al. (1992), mas falta-nos a jazida para determinar, que se deslocavam a velocidade idêntica e que a preservação das várias impressões era perfeitamente homogénea.


Adaptado de Lockley et al., 1992 



Ilustração do comportamento gregário em terópodes – de Ariel Millani Martine

- Pista (6) - Pista de terópode com passos alternadamente curtos e longos, o que revela um nítido padrão de coxeamento, tal como o caso do terópode da Praia do Cavalo  (Dantas et al. 1994) e como outros exemplos bem documentados, desde o Jurássico médio até ao Cretácico médio, sendo oito de Terópodes (Estados Unidos, Uzbequistão, Espanha e Portugal) e dois de Saurópodes (Marrocos e Portugal).


Pista da jazida Tashkurgan I do Uzbequistão de Megalosauripus uzbekistanicus (Meyer e Lockley 1997; Lockley et al. 2000), que também apresenta padrão de coxeamento com nítidos passos curtos e longos de forma alternada.




Pista 6 - Adaptado de Lockley et al., 1992, escala 1 metro



 

- Pistas 5, 9 e 8, representam um episódio diferente da movimentação de terópodes, de dimensões distintas, ocorrido no mesmo estrato, mas noutro "timing" relativamente às movimentações dos animais das pistas 1,2,3,4,6 e 7, uma vez que se deslocam em sentido contrário, mas curiosamente novamente em grupo. Quiçá, talvez mais uma prova do comportamento gregário dos terópodes desta região.

Tal como na pedreira de Vale de Meios podemos observar várias pistas paralelas, de terópodes de grandes dimensões, com a mesma direcção, que se deslocavam a velocidades semelhantes. O registo fóssil mais antigo conhecido de possível comportamento gregário entre terópodes foi descrito por (Ostrom, 1972) relativo a 20 pistas paralelas Jurássico inferior, de Mount Tom, Connecticut.

Adaptado de Lockley et al., 1992 



- Pistas 10, 11 e 12, novo episódio de locomoção de 3 terópodes diferentes, em "timings" distintos, que se deslocavam transversalmente em relação aos outros e mais uma vez em grupo e seguindo uma mesma direcção.

Depois destes três exemplos, assinalados anteriormente torna-se quase indiscutível o possível comportamento gregário dos terópodes desta região do concelho de Sesimbra.




Adaptado de Lockley et al., 1992


Zona central inferior da jazida 

– Uma profusão de marcas estranhas em forma de U perfeitamente visíveis e dispostas de forma aleatória, sem qualquer direcção definida. Num estrato de um nível anterior, apenas um pouco abaixo da laje com vários trilhos de terópodes.


Lembro-me tão bem como se fosse hoje, quando tive o privilégio de ver esta jazida em 1993, fiquei atónito a olhar para aquilo e a interrogar-me o que é que seriam aquelas marcas impressionantes, e para as quais não arranjava explicação. Lembro-me de ter feito este raciocínio: parecem marcas de cascos de cavalo, mas os equídeos são mamíferos que surgiram milhões de anos depois dos dinossáurios, ainda, por cima este estrato é anterior ao das pegadas dos terópodes e saurópodes. Percorri mentalmente a minha base de dados visual, de patas de dinos que conhecia, mas nenhum tinha patas capazes de fazer este tipo de marcas. Fiquei a meditar sobre aquelas marcas tão estranhas. Passados anos tentei procurar nas publicações sobre a jazida, mas nada encontrei, pior ainda, no que lia ninguém fazia referência aquilo, até nos desenhos da jazida, aquela parte aparecia em branco. Só há poucos anos encontrei documentação que me esclareceu.

Tratava-se de marcas fossilizadas, do tipo Rhizocorallium do mesozóico, “tocas”, feitas no sedimento moldável por invertebrados marinhos.

Estes grandes traços semicirculares, que ocorrem em muitos depósitos do Fanerozóico e especialmente no Mesozóico (Lockey et al. 2008), têm sido uma fonte de muita confusão na literatura paleontológica, tal como o enigmático Gumatagichnus ungliformis do Cenomanian do Uzbequistão, ou em Portugal, as “pegadas” de Paúla em Alenquer numa laje do Jurássico. Tratam-se de traços Rhizocorallium criados por invertebrados.  



Rastos fósseis do Uzebakistão                          




Laje de Paúla – Alenquer


Na jazida da pedreira do Zambujal a catalogação como Rhizocorallium, é perfeitamente documentada na publicação “Pegadas de mula”: An explanation for the occurrence of Mesozoic traces that resemble mule tracks, por Martin Lockley , Valery Novikov, Vanda Faria dos Santos, Lev A. Nessov & Gerald Forney Páginas 125-133 | on-line Publicado: 17 de Dezembro, 2008. Os autores consultaram também os especialistas em iconologia, Dr. Franz Fursich e Dr. Richard Bromley, que foram peremptórios em inserir estes traços fósseis como Rhizocorallium, especificamente para o ichnogenus Rhizocorallium jenense Zenker 1836.


Texto: Orlando Pinto, 2017

Origem das fotografias:  Google Maps ; O.Pinto; Sesimbra Cultural; Lockley et al.,(1992); New sauropod trackways from the Middle Jurassic of Portugal; https://pt.slideshare.net/celestinocoutinho/postersesimbra2; Ichnia 2016 - Santos and Neto de Carvalho; Megalosauripus and the problematic concept of megalosaur footprints; lusodinos.blogspot.pt/; projectos.cienciaviva.pt  Ilustrações: Ariel Millani; Yulia Uralova.

Bibliografia: Megalosauripus and the Problematic Concept of Megalosaur Footprints - M.G.Lockley, C.A.Meyer, V.F.Santos (1998); Pegadas de Dinossáurios no Concelho de SesimbraSesimbra Cultural, 3: 10-14 - A.M. Galopim de Carvalho e V.F.Santos (1993); New sauropod trackways from the Middle Jurassic of Portugal - V.F.Santos, J.J.Moratalla, and R.Royo-Torres, (2009); Sesimbra, um pólo importante para o conhecimento da história dos dinossáurios em Portugal, Sesimbra Cultural, 2: 6-9 - A.M.Galopim de Carvalho, Vanda F.Santos, (1992); Evidencia icnológica de un dinosaurio terópodo gigante en el Berriasiense (Cretácico Inferior) de Laurasia (Las Villasecas, Soria, España) - J.L.Barco, J.I.Canudo, J.I.Ruiz-Omeñaca, & J.L.Rubio (2005); Sesimbra Geocircuit and dinosaur tracksites - V.F.Santos, P.Caetano, A.Pólvora, (2016); Gomes (1915-1916) to Ichnia 2016, one hundred years of vertebrate Ichnology in Portugal, Santos and Neto de Carvalho, (2016); Footprint Evidence For Limping Dinosaurs From The Upper Jurassic Of Portugal, P. Dantas, V. Santos, M. Lockley, C. Meyer, (1994); http://cheiramesmoamorto.blogspot.pt/2009/04/jazida-de-pistas-de-dinossauros, (2009); Património Paleontológico: da Descoberta ao Reconhecimento – Cruziana’05, Actas do Encontro Internacional sobre Património Paleontológico, Geoconservação e Geoturismo, Idanha-a-Nova, 144p. Carlos Neto de Carvalho, (2005); http://projectos.cienciaviva.pt/pw011Fotografia e esquema de uma pista muito larga de saurópade; A Jazida da Pedreira do Cavalo (Sesimbra) ou a história das pegadas de dinossáurio que nunca mais poderemos visitar. Al-Madan, Almada, II sér., 4, 175-177. V.F.Santos, A.M.Galopim de Carvalho, e C.M. da Silva, (1995); Poster.sesimbra2 - Celestino Coutinho; “Pegadas de mula”: An explanation for the occurrence of Mesozoic traces that resemble mule tracks - M.Lockley, V.Novikov, V.Santos, A.Nessov, and G.Forney, (1994); As Lendas das Pegadas de Cavalos: Icnofósseis interpretados como marcas de equídeos, Silvério Domingues Figueiredo, (2016); Analysis of dinosaur tracks and their interpretation, José Carlos García-Ramos, Laura Piñuela y José Lires, (2001); Definition of the Portuguese frameworks with international relevance as an input for the European geological heritage characterisation, J.Brilha et al,(2005); On the common occurrence of manus-dominated sauropod trackways in Mesozoic carbonates. - M.G. Lockley, J.G. Pittman, C.A. Meyer, and V.F. Dos Santos (1994); Brontopodus and Parabrontopodus ichnogen nov. and the significance of wide- and narrow-gauge sauropod trackways.- M.G. Lockley, L.O. Farlow, and C.A. Meyer (1994); Dinosaur track sites from Portugal: Scientific and cultural significance - V.F. Santos, C.M. Silva, L.A. Rodrigues (2008); Revision of the biggest and smallest theropod, ornithopod and sauropod footprints of La Rioja (Spain) and its comparison with the world record - E. García-Ortiz de Landaluce, J.M. Ortega-Girela, A. Hurtado Reyes, I. Díaz-Martínez (2009).